Sindicato dos Bancários de Campinas e Região

O caso mais recente e emblemático é o do Itaú, primeiro banco a promover demissões em massa com base em um software instalado nos computadores corporativos para medir atividade.

Apontando suposta “baixa produtividade”, o banco demitiu mais de mil trabalhadores, incluindo empregados recém-promovidos, quem havia solicitado troca de função e outros cujas atribuições exigiam deslocamento fora da mesa. A tecnologia foi usada como métrica absoluta, em substituição à gestão humana.

O episódio acendeu o alerta para uma série de pontos: a legalidade do monitoramento, o direito à privacidade, a necessidade de aviso prévio aos funcionários e, sobretudo, os limites éticos dessa prática. Questões que já estão na mira do Ministério Público e das entidades sindicais, que já se mobilizam para impor barreiras a esse tipo de controle.

Mas, em igual importância, essa discussão nos leva a refletir sobre um outro aspecto central: as pausas na rotina do trabalho (na jornada). O tempo, seja para beber água, ir ao banheiro ou tomar um café na companhia dos colegas, não significa perda de produtividade, mas parte essencial do processo de recarga física e mental – sem falar em direitos e respeito ao corpo humano.

O sociólogo italiano Domenico De Masi já defendia o conceito de “ócio criativo”, no qual o lazer e o descanso são também espaços de inovação, reflexão e solução de problemas complexos.

Não por coincidência, pesquisas recentes e experiências práticas mostram que jornadas reduzidas (4x3, como exemplo) resultam em maior bem-estar e melhor desempenho, com ganhos para empregados e empregadores.

Também o direito a desconexão é pauta que abrange o trabalho e o direito de viver do trabalhador, em contexto mais amplo. Esses temas já foram levados para negociação e estão na pauta dos bancários com os bancos.

Ainda assim, a quem insista em impor metas abusivas, retomar o controle rígido do trabalho presencial e adotar softwares de vigilância que transformam pausas em indícios de improdutividade, utilizando o lucro como métrica única de validação.

O Itaú errou — e os relatos dos demitidos comprovam. Ao colocar a máquina acima da gestão humana, reforçou uma lógica que já se mostrou nociva em outros setores, como redes de cafeterias nos Estados Unidos que monitoram quantas mesas cada garçom atende por hora, em rotinas de trabalho que adoece. Hoje foi no banco, amanhã pode ser na sua empresa.

Neste cenário, falar sobre o ócio é falar sobre trabalho. É reivindicar condições mais humanas e reconhecer que a pausa também produz. Em um mundo de vigilância crescente, é urgente lembrar que a luta histórica dos trabalhadores sempre foi por melhores condições — e agora, mais do que nunca, para impor limites à tecnologia é combate à exploração humana.

Lourival Rodrigues

Presidente do Sindicato dos Bancários de Campinas e Região

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